LIDERANÇA EDUCACIONAL E OS DESAFIOS DO NOVO ENSINO MÉDIO (2024): PERSPECTIVAS TEÓRICAS E PRÁTICAS PARA UMA GESTÃO TRANSFORMADORA

José Ricardo Mole • 15 de setembro de 2025

1 Introdução


O Ensino Médio brasileiro tem sido objeto de intensos debates nas últimas décadas, marcado por reformas que buscam equilibrar demandas sociais, acadêmicas e profissionais. A Lei nº 13.415/2017, ao instituir itinerários formativos e flexibilizar o currículo, representou uma tentativa de aproximar a escola da diversidade de interesses dos estudantes. Entretanto, críticas quanto à fragmentação do currículo e à desigualdade na oferta levaram à formulação de uma nova política: a Lei nº 14.945/2024, que institui a Política Nacional de Ensino Médio (PNEM).


Nesse cenário, a liderança educacional assume papel central. O líder não é apenas executor de políticas, mas mediador crítico entre normas e práticas, articulador de sentidos coletivos e agente transformador da cultura escolar. Afinal, entre o que está escrito nas normativas e a realidade de grande parte das escolas brasileiras e, especialmente, as escolar públicas, há um abismo que necessita de bastante investimento, esforço e coragem para ser vencido. Como sustenta Fullan 31984836185, “a liderança eficaz em tempos de mudança não consiste em impor soluções, mas em criar condições para que as pessoas construam novas formas de aprender e ensinar”.


É necessário bom senso e sensibilidade para compreender a realidade concreta da educação no Brasil. Embora dados do IBGE demonstrem uma melhora na frequência escolar e na alfabetização em geral, algumas regiões do Brasil parecem ir na contramão das estatísticas e ainda vivenciam realidades precárias, distantes do ideal no que diz respeito à educação.


2 A Política Nacional de Ensino Médio (2024) e seus fundamentos


A PNEM promove ajustes significativos:


  • Carga horária mínima ampliada para 3.000 horas, das quais 2.400 horas são destinadas à Formação Geral Básica (FGB), fortalecendo o núcleo comum.
  • Itinerários formativos com carga mínima de 600 horas, ressignificados como espaços de aprofundamento.
  • Itinerários técnico-profissionais com variação de 600 a 1.200 horas, articulando formação acadêmica e profissional.
  • Componentes Curriculares Eletivos (CCE), regulamentados pela Resolução CNE/CEB nº 2/2024, ampliando a flexibilidade curricular.
  • Implementação gradual (2025–2027), acompanhada de apoio técnico do MEC.
  • Enem mantido centrado na FGB, após veto à inclusão dos itinerários no exame.


Essas mudanças sinalizam um movimento de recentralização da formação comum, sem renunciar à diversificação curricular, buscando corrigir desequilíbrios da reforma de 2017.


3 Liderança educacional: entre a teoria e a prática


A literatura sobre liderança educacional oferece diferentes perspectivas que ajudam a compreender os desafios atuais. Algumas teorias continuam ainda atuais pela sua profundidade. Para fins desse artigo, escolheremos três: Liderança Instrucional, Liderança Transformacional e Liderança Distribuída.



Nosso objetivo é buscar referencial teórico que reforce a importância do papel da liderança educacional na promoção e na implementação de políticas públicas educacionais, no caso específico aqui, do Novo Ensino Médio no Brasil.


3.1 Liderança Instrucional


Conforme Hallinger 31984836185, a liderança instrucional enfatiza a centralidade da aprendizagem. Nesse sentido, líderes são chamados a garantir que a ampliação da FGB não se restrinja a uma expansão de horas, mas represente maior qualidade pedagógica, assegurando metodologias que dialoguem com as competências da BNCC 31984836185.


Hallinger 31984836185, ainda, concebe a liderança instrucional como uma abordagem que coloca a aprendizagem no centro da ação escolar, deslocando o foco do gestor de funções meramente administrativas para o núcleo pedagógico. Essa concepção sustenta que o papel essencial do líder é criar condições para que o ensino e a aprendizagem ocorram com qualidade, articulando expectativas claras de desempenho, acompanhamento dos processos e suporte contínuo ao desenvolvimento docente.


O modelo enfatiza três dimensões principais:


  1. Definição de missão e foco educacional: o líder deve estabelecer uma visão clara de ensino-aprendizagem e alinhar os esforços da comunidade escolar em torno dela.
  2. Gestão do programa de ensino: envolve monitorar práticas pedagógicas, garantir o uso de metodologias eficazes e analisar resultados de aprendizagem.
  3. Criação de um clima escolar favorável à aprendizagem: assegurando recursos, tempo, formação continuada e cultura colaborativa entre professores.,


Assim, a liderança instrucional não é centralizadora, mas orientadora, formadora e transformadora, fortalecendo a prática docente e ampliando a aprendizagem dos estudantes.


No contexto da Formação Geral Básica (FGB), a ampliação da carga horária não deve ser compreendida apenas como um aumento quantitativo do tempo escolar. Segundo a perspectiva da liderança instrucional, esse movimento só terá impacto real se vier acompanhado de uma qualificação pedagógica efetiva. Isso significa:


  • Planejamento pedagógico intencional, articulado a resultados de aprendizagem esperados.
  • Seleção criteriosa de metodologias ativas que promovam protagonismo estudantil.
  • Integração transversal dos conhecimentos para evitar fragmentação curricular.
  • Avaliação diagnóstica e formativa, garantindo acompanhamento e personalização do ensino.


Dessa forma, o líder instrucional assegura que a expansão de horas não se converta em mais do mesmo, mas, em experiências de aprendizagem significativas que ampliem a capacidade crítica e prática dos estudantes.

A BNCC 31984836185 define 10 competências gerais, entre as quais se destacam: o pensamento científico, crítico e criativo; a cultura digital; a argumentação; a empatia e a responsabilidade; a autonomia e o protagonismo.

O líder instrucional, alinhado à BNCC, deve garantir que a FGB seja estruturada de modo a:


  • Desenvolver competências cognitivas e socioemocionais de forma integrada, evitando o ensino puramente conteudista.
  • Estimular metodologias interativas e colaborativas (projetos, resolução de problemas, investigação científica).
  • Promover a interdisciplinaridade, articulando áreas do conhecimento para dar sentido ao aprendizado.
  • Assegurar equidade educacional, garantindo que todos os estudantes tenham acesso a condições de aprendizagem que os preparem para os desafios contemporâneos.


Em síntese, a liderança instrucional, de acordo com a teoria de Hallinger 31984836185, faz da ampliação da FGB uma oportunidade de qualificação real da experiência educativa, não apenas uma expansão formal. O líder é o guardião da intencionalidade pedagógica, garantindo que cada hora adicional represente uma hora de aprendizagem significativa, contextualizada e alinhada às competências da BNCC.


3.2 Liderança Transformacional


Burns 31984836185 e Bass 31984836185 conceituam a liderança transformacional como aquela que inspira, motiva e eleva seguidores a níveis superiores de engajamento. Aplicada ao Novo Ensino Médio, essa liderança é essencial para mobilizar professores em torno de novas metodologias, e para estimular o protagonismo juvenil na escolha de itinerários e componentes eletivos.


A liderança transformacional foi originalmente definida por Burns 31984836185 como aquela capaz de elevar seguidores a níveis superiores de engajamento e moralidade, indo além de interesses pessoais imediatos em prol de objetivos coletivos mais amplos. Bass 31984836185 aprofunda esse conceito ao propor quatro dimensões centrais:


  1. Influência idealizada: líderes servem como modelo, transmitindo valores, ética e visão inspiradora.
  2. Motivação inspiradora: estimulam entusiasmo, esperança e propósito compartilhado.
  3. Estimulação intelectual: desafiam professores e estudantes a questionar práticas, inovar e buscar novas soluções.
  4. Consideração individualizada: apoiam e acompanham cada pessoa de forma próxima, reconhecendo necessidades e potencialidades singulares.


Assim, a liderança transformacional não apenas coordena, mas mobiliza emocional e intelectualmente, promovendo um ambiente de crescimento mútuo.


No contexto do Novo Ensino Médio, a liderança transformacional é essencial para viabilizar mudanças profundas. A ampliação da carga horária da Formação Geral Básica (FGB) e a introdução de itinerários formativos exigem mobilização e engajamento coletivo. Aqui, o papel do líder transformacional se expressa em dois movimentos centrais:


  • Mobilização docente: inspirar professores a incorporar novas metodologias (metodologias ativas, aprendizagem baseada em projetos, uso de tecnologias educacionais) e a desenvolver práticas mais colaborativas, alinhadas às demandas contemporâneas de aprendizagem.
  • Protagonismo juvenil: estimular os estudantes a exercer autonomia e responsabilidade em suas escolhas, explorando os itinerários formativos e componentes eletivos como espaços de realização pessoal e de construção de projetos de vida.


Desse modo, a liderança transformacional atua como força catalisadora para que a reforma não seja apenas normativa, mas, vivida como um processo de inovação cultural e pedagógica.


A BNCC 31984836185 orienta o desenvolvimento de competências gerais que exigem um ensino que vá além da memorização, estimulando pensamento crítico, criatividade, cultura digital, comunicação, autogestão e empatia. A liderança transformacional é compatível com essa visão, pois:


  • Inspira docentes a criarem práticas pedagógicas coerentes com as competências socioemocionais e cognitivas da BNCC.
  • Promove inovação curricular, assegurando que itinerários formativos ampliem repertórios culturais, científicos e profissionais dos jovens.
  • Fomenta responsabilidade e engajamento estudantil, ajudando os alunos a compreenderem suas escolhas no percurso escolar como parte de seu projeto de vida.
  • Eleva o padrão de qualidade pedagógica, transformando a ampliação da FGB em um ganho qualitativo de experiências e não apenas em um aumento quantitativo de horas.


Em síntese, a liderança transformacional, conforme Burns 31984836185 e Bass 31984836185, inspira e mobiliza professores e estudantes para além de seus interesses individuais, fortalecendo o engajamento coletivo com a missão educativa. Aplicada ao Novo Ensino Médio, garante que a ampliação da FGB e a implementação dos itinerários não se reduzam a mudanças estruturais, mas se traduzam em aprendizagens significativas, protagonismo juvenil e inovação pedagógica alinhada às competências da BNCC.


3.3 Liderança Distribuída


Spillane 31984836185 defende a ideia de liderança distribuída, entendendo-a como prática coletiva que envolve múltiplos atores. Isso é especialmente relevante no contexto atual, em que diretores, coordenadores pedagógicos e docentes devem assumir a corresponsabilidade pela construção curricular, superando a lógica hierárquica tradicional.


A liderança distribuída é apresentada como uma prática coletiva, que vai além da figura única do gestor escolar. Trata-se de uma concepção em que diretores, coordenadores pedagógicos, professores e outros atores educativos compartilham responsabilidades e papéis de liderança, construindo juntos as condições para a melhoria da aprendizagem.


A liderança, nessa perspectiva, não é vista como atributo individual, mas como um processo socialmente interativo:


  1. Interdependência entre atores: cada profissional traz competências e perspectivas que, em conjunto, ampliam a capacidade de resposta da escola.
  2. Prática situada: a liderança emerge das demandas do cotidiano escolar e se adapta ao contexto.
  3. Corresponsabilidade: decisões pedagógicas e curriculares não ficam restritas ao diretor, mas envolvem a comunidade escolar.


Assim, a liderança distribuída promove uma cultura colaborativa, em que todos assumem um papel ativo na qualidade educacional.


No Novo Ensino Médio, que exige tanto a ampliação da Formação Geral Básica (FGB) quanto a implementação dos itinerários formativos, a liderança distribuída mostra-se estratégica. Isso porque a complexidade das mudanças demanda a corresponsabilidade de múltiplos atores:


  • Diretores: articulam políticas, recursos e visão institucional.
  • Coordenadores pedagógicos: acompanham práticas docentes, promovem formação continuada e garantem coerência pedagógica.
  • Professores: assumem papel central no desenvolvimento curricular, trazendo práticas inovadoras, experiências de sala de aula e diálogo com os estudantes.
  • Estudantes: como protagonistas, também participam do processo de escolha e construção dos itinerários, sinalizando interesses e necessidades.


Essa lógica supera a hierarquia verticalizada tradicional e favorece uma gestão mais participativa, capaz de dar respostas coletivas aos desafios de implementação do Novo Ensino Médio.


A BNCC 31984836185 propõe competências que exigem integração entre áreas do conhecimento, colaboração e foco no desenvolvimento integral do estudante. A liderança distribuída conecta-se diretamente a essas diretrizes, pois:

  • Promove trabalho em rede entre diferentes profissionais da escola, garantindo coerência curricular e interdisciplinaridade.
  • Favorece inovação pedagógica, já que as decisões não dependem de um único ator, mas da interação de diversos pontos de vista.
  • Assegura equidade e corresponsabilidade, tornando todos responsáveis pelo sucesso dos estudantes.
  • Alinha-se à construção de itinerários formativos que reflitam a realidade e os interesses juvenis, fortalecendo o protagonismo estudantil.


Em síntese, A liderança distribuída, segundo Spillane 31984836185, entende a escola como um espaço de lideranças compartilhadas, onde diretores, coordenadores e professores assumem corresponsabilidade pela construção curricular. No contexto do Novo Ensino Médio, essa abordagem é essencial para superar estruturas hierárquicas e criar um ambiente de colaboração, inovação e alinhamento às competências da BNCC, garantindo que a ampliação da FGB e a implementação dos itinerários se traduzam em efetiva melhoria da qualidade pedagógica.


4 O papel estratégico da liderança na implementação do PNEM


Liderar a implementação da PNEM significa articular três dimensões:


  1. Política: interpretar e contextualizar a legislação em diálogo com as condições locais (Libâneo, 2012).
  2. Pedagógica: assegurar coerência entre a Formação Geral Básica, os itinerários formativos e os CCE, promovendo interdisciplinaridade e inovação metodológica.
  3. Social: enfrentar desigualdades, garantindo equidade de oferta e permanência dos estudantes (Dourado, 2021).


Kotter (2025) lembra que mudanças só se consolidam quando líderes são capazes de gerar “vitórias de curto prazo”, que, no contexto do Ensino Médio, podem significar experiências pedagógicas bem-sucedidas em itinerários ou a implementação criativa de componentes eletivos.


5 Desafios e tensões


A transição para o novo modelo traz implicações complexas:


  • Desigualdades regionais: a oferta de itinerários tende a ser limitada em escolas públicas de pequeno porte, exigindo inovação na gestão e parcerias interinstitucionais.
  • Formação docente: ainda insuficiente para a interdisciplinaridade exigida, demandando liderança comprometida com a formação continuada.
  • Gestão da carga horária: equilíbrio delicado entre a expansão da FGB e a preservação de espaços de flexibilidade curricular.
  • Resistência cultural: muitos professores e famílias ainda interpretam as reformas como instabilidade normativa, cabendo ao líder criar sentido coletivo e confiança no processo.


6 Conclusão


O Novo Ensino Médio (2024) inaugura um ciclo de reconfiguração curricular que exige da liderança educacional visão estratégica, compromisso ético e sensibilidade social.

Se, por um lado, a ampliação da Formação Geral Básica fortalece a formação comum, por outro, os itinerários e componentes eletivos representam oportunidades de inovação e personalização da aprendizagem.


Nesse cenário, a liderança educacional é chamada a ser transformacional e distribuída, capaz de engajar múltiplos atores na construção de uma escola democrática, equitativa e alinhada aos desafios do século XXI. Como lembra Morin 31984836185, "educar é preparar para a complexidade e, liderar na educação é, sobretudo, liderar o futuro".


Referências


BASS, B. M. From transactional to transformational leadership: Learning to share the vision. Organizational Dynamics, v. 18, n. 3, 1990.


BRASIL. Lei nº 13.415, de 16 de fevereiro de 2017. Altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.


BRASIL. Lei nº 14.945, de 31 de julho de 2024. Institui a Política Nacional de Ensino Médio.


BRASIL. Base Nacional Comum Curricular: Ensino Médio. Brasília: MEC, 2018.


BURNS, J. M. Leadership. New York: Harper & Row, 1978.


DOURADO, L. F. Gestão democrática e qualidade da educação: desafios contemporâneos. Educação & Sociedade, Campinas, v. 42, 2021.


FULLAN, M. Liderar em uma cultura de mudança. Porto Alegre: Penso, 2020.

HALLINGER, P. Leading educational change: Reflections on the practice of instructional and transformational leadership. Cambridge Journal of Education, v. 33, n. 3, 2003.


KOTTER, J. P. Leading Change. Boston: Harvard Business Review Press, 2012.


LIBÂNEO, J. C. Organização e gestão da escola: teoria e prática. Goiânia: Alternativa, 2012.


MORIN, E. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2015.


SPILLANE, J. P. Distributed Leadership. San Francisco: Jossey-Bass, 2006.

Por Prof. José Ricardo Mole 10 de setembro de 2026
O que uma pesquisa produzida no Brasil em escolas brasileiras, já demonstrou sobre a relação entre gestão e aprendizagem e como transformar isso em rotina de trabalho. 1. Introdução Toda escola sabe a média das suas turmas. Poucas sabem quais alunos, nominalmente, estão a caminho de não aprender o que foi planejado para este ano. Essa distância entre dado disponível e informação utilizável é o principal gargalo da gestão acadêmica na Educação Básica brasileira. O problema raramente é de sistema. É de desenho: o que se mede, com que periodicidade, quem olha e o que acontece depois que alguém olhou. Este artigo se apoia deliberadamente numa pesquisa nacional. Não por bairrismo acadêmico, mas porque o Brasil acumulou, nas últimas duas décadas, um corpo de evidência sobre efeito-escola, avaliação em larga escala e impacto de programas de gestão que dialoga com a nossa realidade de forma mais precisa do que a literatura importada. 2. A evidência brasileira: gestão produz aprendizagem e é possível medir quanto A demonstração mais robusta que temos vem da avaliação do programa Jovem de Futuro. Carvalho, Franco, Garcia e Henriques estimaram, por meio de desenho experimental, o impacto do programa sobre a proficiência de estudantes ao final da 3ª série do Ensino Médio. O programa foi adotado ao longo de uma década por cerca de três mil escolas públicas de onze redes estaduais. O resultado encontrado foi um impacto estatisticamente significativo de 10% de um desvio padrão, robusto entre redes de ensino e ao longo do tempo. Os autores observam que uma magnitude dessa ordem equivale ao ganho de proficiência que um estudante alcança ao longo de um ano letivo do Ensino Médio. "Um ano inteiro de aprendizagem, obtido sem trocar o corpo docente, sem reformar a estrutura física e sem alterar o material didático. Apenas mudando a forma como a escola é gerida". O diagnóstico que abre o estudo é igualmente relevante para a escola privada: o desempenho educacional brasileiro é limitado mesmo quando comparado ao de países com gasto por estudante semelhante e esse desempenho decorre, em grande medida, de uso inadequado dos recursos disponíveis. Traduzindo para a unidade escolar: o problema, com frequência, não é quanto se gasta. É como se aloca. Na mesma direção, Gobbi, Lacruz, Américo e Zanquetto Filho analisaram a relação entre gestão escolar e desempenho na Prova Brasil de Matemática do 9º ano, com modelagem por equações estruturais aplicada a microdados do Saeb de escolas públicas do Espírito Santo. O estudo confirma a associação entre qualidade da gestão e desempenho e acrescenta um achado que interessa a quem administra unidades grandes: a complexidade da gestão modera essa relação. Escola maior e mais complexa não converte gestão em aprendizagem com a mesma facilidade. Abrucio, em estudo qualitativo sobre dez escolas paulistas com resultados superiores ao esperado para seu perfil, identificou como traço recorrente a presença de uma direção efetivamente envolvida com o trabalho pedagógico e não apenas com a administração do prédio e do calendário. 3. Efeito-escola: separar o que a escola produz do que ela apenas recebe Antes de montar qualquer painel, é preciso resolver uma questão conceitual que a pesquisa brasileira tratou com rigor. Soares, em trabalho de referência sobre o efeito da escola no desempenho cognitivo dos alunos, e depois Alves e Soares em estudos longitudinais com escolas públicas de Belo Horizonte, estabelecem uma distinção decisiva: desempenho escolar é o nível alcançado em determinada etapa da escolarização; aprendizado é a aquisição de conhecimento ao longo da trajetória. Para avaliar o sucesso de uma escola específica, é o segundo que importa e ele só se mede com dados longitudinais do mesmo aluno. A implicação prática é dura. Boa parte da variação nos resultados escolares se explica por fatores extraescolares, sobretudo pela origem social dos alunos. Uma escola privada de alto padrão que exibe médias altas pode estar, em larga medida, medindo o perfil socioeconômico de quem matrícula e não o valor que agrega. Alves e Soares mostram ainda que a composição das turmas por nível de habilidade tem efeito próprio sobre o desempenho, o que transforma a política de enturmação em decisão pedagógica de primeira ordem e não em tarefa de secretaria. "A pergunta que separa a escola que se conhece da escola que se ilude não é qual é a nossa média, mas quanto os nossos alunos avançaram, dado o ponto de onde partiram". Brooke e Soares reuniram a trajetória dessa linha de pesquisa em obra que continua sendo a melhor porta de entrada brasileira ao tema e que recomendo a qualquer coordenação que vá desenhar um sistema de indicadores. 4. Avaliação a serviço da decisão Nada disso funciona se a escola só gerar dado no fim do bimestre. Luckesi organiza essa discussão com uma distinção que uso em toda formação de equipe: a avaliação classificatória é um ato estático, que apenas registra a condição em que o aluno foi encontrado e a converte em nota; a avaliação diagnóstica é dinâmica, existe para subsidiar decisão e reorientar a ação. Escola que só classifica produz julgamento, não produz aprendizagem. Hoffmann, na mesma tradição, insiste que a avaliação precisa ser mediadora, isto é, deve gerar interação e retomada entre professor e aluno e não apenas veredicto ao final do percurso. Do ponto de vista da gestão, isso se traduz em uma decisão concreta de calendário: a escola precisa de avaliações intermediárias curtas, aplicadas em ciclos de seis a oito semanas, desenhadas para diagnosticar habilidades e não para compor nota, seguidas de um momento formal de análise com os professores e de um plano de reensino com data marcada. O momento que mais falha é o terceiro. Escolas brasileiras analisam razoavelmente bem e planejam mal. A pergunta de controle que uso na reunião de análise é sempre a mesma: em que dia da agenda isto vai acontecer e com qual turma? Vale registrar um alerta que Bonamino e Sousa fazem sobre as avaliações em larga escala e que se aplica integralmente às avaliações internas de uma escola privada: quando o resultado do teste ganha peso excessivo, produz-se estreitamento do currículo, com a escola treinando para o formato da prova em vez de ensinar o que planejou. O antídoto é avaliar habilidades amplas e nunca usar um único instrumento como medida de tudo. 5. O painel em três camadas Proponho organizar os indicadores pela pergunta que cada um responde. Camada de resultado , que responde se os alunos estão aprendendo o planejado: percentual de alunos por faixa de domínio, desempenho por habilidade e evolução do mesmo aluno ao longo do ano. Média de turma não figura aqui, pelas razões da seção anterior. Camada de processo , que responde se estamos fazendo o que combinamos: conteúdo previsto contra conteúdo dado, aulas vagas e reposições pendentes, observações de aula realizadas, devolutivas entregues, planejamentos coletivos efetivamente ocorridos. É a camada mais negligenciada e a mais acionável. Camada de risco , que responde quem precisa de intervenção agora: lista nominal de alunos em risco acadêmico, frequência por turma, ocorrências disciplinares por segmento. Esta camada não é relatório, é lista de nomes com responsável designado e data de retomada. A periodicidade importa tanto quanto o conteúdo. Resultado pode ser bimestral. Processo e risco precisam ser semanais, sob pena de a informação chegar tarde demais para ser útil. 6. Acompanhamento docente: apoiar sem fiscalizar A observação de aula é o instrumento mais poderoso e mais mal utilizado da gestão acadêmica brasileira. Ela fracassa, na maioria dos casos, por um vício de desenho: quem observa para ajudar é a mesma pessoa que decide sobre permanência, promoção e alocação de turmas no ano seguinte. Ninguém se expõe voluntariamente diante de quem também julga. Gatti e Barretto, no estudo sobre os professores do Brasil produzido para a UNESCO, mostram que a formação continuada tende a fracassar quando descolada da prática concreta do professor e da realidade da sua escola. A observação com devolutiva é exatamente o mecanismo capaz de ancorar a formação no que o professor faz na terça-feira à tarde. Quando vira julgamento, perde essa função. O desenho que recomendo: Observações curtas, de quinze a vinte minutos, com alta frequência, em vez de observações longas e raras. Foco único acordado antes com o professor, no lugar de formulários com dezenas de itens que diluem a atenção. Devolutiva no mesmo dia ou no seguinte, oralmente, terminando em uma ação concreta e verificável para a semana. Registro do combinado, não do julgamento. Separação formal e comunicada entre esse processo e a avaliação de desempenho, que segue existindo com instrumento e periodicidade próprios. Há um dado brasileiro que dá contexto a essa conversa. Segundo a TALIS, conduzida no Brasil pelo Inep, os professores brasileiros declaram gastar 21% do tempo de aula apenas para manter a ordem na sala, contra 15% na média dos países da OCDE e 44% relatam ser bastante interrompidos pelos alunos. Se a devolutiva de observação ignora o manejo de sala e vai direto para a didática, ela está tratando o segundo problema do professor e deixando o primeiro intacto. Lück, ao definir as competências do gestor na dimensão de gestão de pessoas, sustenta que promover e orientar a troca de experiências entre professores é estratégia de capacitação em serviço. Vale registrar que isso é mais barato e frequentemente mais eficaz do que contratar formação externa. 7. O que a escola precisa ter pronto quando o dado aponta um problema Diagnóstico sem repertório de resposta produz frustração institucional. Se o painel identifica dez alunos em risco no 6º ano e a escola não tem o que oferecer, o efeito líquido do painel é negativo: cria consciência do problema e evidencia a impotência. Agrupamento temporário para reensino de habilidades específicas, com início e fim definidos. Protocolo de contato com a família em prazo fixo a partir da entrada do aluno na lista de risco. Material de apoio já produzido para as habilidades que historicamente concentram dificuldade. Fluxo escrito de encaminhamento para avaliação especializada, com responsável nomeado. Tempo protegido na carga do professor para atendimento individualizado, o que é decisão de grade e, portanto, administrativa. 8. Três riscos do uso de indicadores O primeiro é a corrupção da métrica . Todo indicador que vira meta com consequência tende a perder validade, porque o sistema aprende a produzir o número em vez do resultado. Prova mais fácil eleva média. Recuperação generosa eleva aprovação. O segundo é o gerencialismo . Luiz Carlos de Freitas construiu a crítica mais consistente que temos ao transplante acrítico de lógicas empresariais para a escola, argumentando que a responsabilização baseada em teste tende a desmoralizar o magistério e a estreitar o trabalho pedagógico. Não é preciso concordar com todas as conclusões do autor para reconhecer o alerta: indicador é instrumento de conversa com a equipe, não substituto dela. Paro, em sua crítica clássica à administração escolar, formula o princípio que resolve a maior parte dessas tensões: a administração só se justifica quando subordinada aos fins educativos e a inversão dessa ordem produz eficiência sem propósito. O terceiro é a assimetria de exposição . Escola que mede intensamente o professor e frouxamente a gestão cria um contrato desigual que corrói a confiança. Se a coordenação cobra devolutiva de aula, a direção precisa cobrar de si mesma o número de observações realizadas e tornar isso público internamente. 9. Conclusão Gestão acadêmica não é produção de relatórios. É a construção de um ciclo curto entre evidência e ação, sustentado por três decisões que competem à direção: definir o que será medido e com que frequência, proteger na agenda o tempo em que alguém olha para o dado junto com os professores e garantir que exista resposta disponível quando o dado apontar um problema. A evidência brasileira é encorajadora e exigente ao mesmo tempo. Mostra que mudar a gestão pode valer um ano letivo de aprendizagem. E mostra, pelos estudos de efeito-escola, que boa parte do que exibimos como resultado não foi produzido por nós. Saber distinguir uma coisa da outra é, no fim, o trabalho. 10. Referências ABRUCIO, Fernando Luiz. Gestão escolar e qualidade da educação: um estudo sobre dez escolas paulistas. Estudos & Pesquisas Educacionais, São Paulo, n. 1, p. 241-274, 2010. ALVES, Maria Teresa Gonzaga; SOARES, José Francisco. Efeito-escola e estratificação escolar: o impacto da composição de turmas por nível de habilidade dos alunos. Educação em Revista, Belo Horizonte, n. 45, p. 25-59, 2007. ALVES, Maria Teresa Gonzaga; SOARES, José Francisco. O efeito das escolas no aprendizado dos alunos: um estudo com dados longitudinais no Ensino Fundamental. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 34, n. 3, p. 527-544, 2008. BONAMINO, Alicia; SOUSA, Sandra Zákia. Três gerações de avaliação da educação básica no Brasil: interfaces com o currículo da/na escola. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 38, n. 2, p. 373-388, 2012. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. BROOKE, Nigel; SOARES, José Francisco (Orgs.). Pesquisa em eficácia escolar: origem e trajetórias. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008. CARVALHO, Mirela de; FRANCO, Samuel; GARCIA, Beatriz Silva; HENRIQUES, Ricardo. Promovendo o desempenho educacional via melhorias na gestão escolar: o caso do programa Jovem de Futuro. 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Por Prof. José Ricardo Mole 9 de setembro de 2026
Na escola, quase toda decisão administrativa é uma decisão pedagógica adiada. Um exame da parte da gestão que decide se a proposta pedagógica sobrevive ao mês, à luz de dados e autores brasileiros. 1. Introdução Existe uma divisão de trabalho consagrada nas escolas brasileiras: a coordenação cuida do pedagógico, a administração cuida do resto. É uma conveniência de organograma e é falsa. Quando a mantenedora reduz a hora de planejamento coletivo para conter folha, ela não tomou uma decisão financeira. Tomou uma decisão pedagógica, cujos efeitos aparecerão dois anos depois e que ninguém atribuirá àquela reunião de orçamento. "A gestão administrativa não é o oposto da gestão pedagógica. É a infraestrutura sem a qual a gestão pedagógica não tem onde acontecer". 2. As dimensões da gestão e a hierarquia entre elas Lück organiza o trabalho do gestor em dimensões de organização e de implementação, distinguindo a gestão de pessoas, a pedagógica, a administrativa, a do clima e cultura escolar, a do cotidiano e a de resultados. A autora sustenta que a qualidade do ensino não é garantida pelos equipamentos, pelos prédios ou pelos bens materiais de uma escola, mas pela competência das pessoas que a compõem e pela sua determinação em promover ensino voltado à aprendizagem. Libâneo acrescenta à leitura organizacional: a escola é uma organização cujo produto é imaterial e cuja tecnologia central é a relação entre pessoas, o que torna insuficiente qualquer transposição direta de modelos empresariais. Paro, na sua crítica clássica, formula o princípio hierárquico que deveria orientar toda decisão administrativa em escola: a administração só se justifica quando subordinada aos fins educativos. Invertida essa ordem, produz-se eficiência sem propósito. A consequência prática é uma regra de critério. Diante de duas alternativas administrativas de custo semelhante, escolhe-se a que preserva tempo pedagógico. É simples de enunciar e difícil de sustentar em reunião de orçamento. 3. Pessoas: o indicador administrativo mais pedagógico que existe Rotatividade docente costuma ser tratada como linha de custo de rescisão. É a parte barata do problema. Cada professor que sai leva o conhecimento acumulado sobre aquelas turmas, os combinados construídos com as famílias e a calibragem que levou meses para se estabelecer. Os dados brasileiros ajudam a dimensionar o que está por trás desse número. Segundo a TALIS, conduzida no Brasil pelo Inep, cerca de 20% dos professores brasileiros dos anos finais do Ensino Fundamental trabalham em pelo menos duas escolas, proporção muito superior à média dos países participantes, de 6%. Um professor dividido entre duas instituições não participa efetivamente de planejamento coletivo em nenhuma delas. A edição mais recente da pesquisa acrescenta um retrato preocupante das condições de trabalho: os professores brasileiros com contrato de tempo integral declaram carga semanal média de 40,3 horas, dedicam 9,3 horas por semana à preparação de aulas e 6,1 horas à correção, ambos acima da média da OCDE; 16% afirmam que o trabalho tem impacto muito negativo sobre sua saúde mental, contra 10% na média dos países; e apenas 14% se sentem valorizados pela sociedade. "Esses números não descrevem um problema de mercado de trabalho. Descrevem condições de trabalho e condições de trabalho são desenhadas por quem faz a grade e o orçamento". Gatti e Barretto, no diagnóstico sobre os professores do Brasil, associam esse quadro a impasses estruturais de formação, carreira e condições de exercício. Boa parte disso escapa ao alcance de uma unidade escolar. Porém, não tudo. Grade, previsibilidade, tempo de planejamento remunerado e qualidade da relação com a coordenação são variáveis internas. Três indicadores que recomendo acompanhar em conjunto: Rotatividade docente anual, apurada por segmento. Segmentos muito acima da média institucional têm problema de gestão local, não de mercado. Absenteísmo docente, que funciona como indicador antecedente e costuma subir meses antes de um pedido de demissão. Taxa de rematrícula por turma, que cruzada com as duas anteriores costuma apontar com precisão onde a escola perde vínculo. 4. Tempo: o recurso escasso que a administração distribui A grade horária é o documento administrativo com maior consequência pedagógica de uma unidade escolar e costuma ser tratado como quebra-cabeça logístico. Há um dado que deveria estar em toda reunião de planejamento de calendário. A TALIS aponta que os professores brasileiros gastam 21% do tempo de aula apenas para manter a ordem na sala, contra 15% na média da OCDE, com aumento de dois pontos percentuais desde 2018. A cada cinco horas de aula, aproximadamente uma se perde antes que qualquer ensino aconteça. Recuperar parte desse tempo é a intervenção de melhor relação entre custo e efeito disponível para uma direção, porque não exige contratação nem obra. Exige protocolo, formação e acompanhamento. Outras decisões de tempo que são de gestão e não de secretaria: Existe hora de planejamento coletivo por área, no mesmo horário, para os professores que precisam planejar juntos? Sem coincidência de horário, o planejamento coletivo é ficção documental. Os componentes que concentram maior dificuldade estão nos horários de maior rendimento da turma ou nos que sobraram? Há tempo protegido na carga do coordenador para entrar em sala? Se ele atende famílias, resolve disciplina e substitui faltas, não observará aula alguma. O calendário publicado em janeiro já prevê os dias de análise de resultados das avaliações intermediárias? Uma regra que aplico: o que não está no calendário publicado em janeiro não vai acontecer. A agenda escolar é ocupada por urgência e a urgência sempre chega primeiro. 5. Recursos: o problema brasileiro é de alocação, não apenas de volume A gestão financeira de uma unidade trabalha com poucas variáveis relevantes: matrículas, ticket médio, rematrícula, inadimplência, custo por aluno, participação da folha na receita e ponto de equilíbrio por turma. O diagnóstico que abre a avaliação do Jovem de Futuro merece ser lido por qualquer mantenedor. Carvalho, Franco, Garcia e Henriques registram que o desempenho educacional brasileiro é limitado mesmo quando comparado ao de países com o mesmo gasto por estudante e que esse desempenho decorre em grande medida do uso inadequado dos recursos disponíveis. O impacto encontrado pelo programa, de 10% de um desvio padrão, equivalente a um ano letivo de aprendizagem no Ensino Médio, foi obtido essencialmente por mudança de práticas de gestão. A leitura para a escola privada é direta: antes de discutir aumento de mensalidade ou corte de custo, vale examinar se os recursos que já existem estão alocados onde produzem aprendizagem. Hora de coordenação dentro de sala, tempo de planejamento coletivo e sistema de acompanhamento de alunos em risco custam pouco e aparecem pouco no material de matrícula. Gobbi e colaboradores acrescentam um alerta útil ao crescimento: a complexidade da gestão modera a relação entre boa gestão e desempenho. Unidade que cresce sem redesenhar sua estrutura de coordenação tende a perder eficácia gerencial mesmo mantendo as mesmas práticas. 6. Conformidade: o trabalho invisível que só aparece quando falta Um inventário mínimo, a ser revisado em ciclo anual com responsável nomeado: Regularidade documental: autorização de funcionamento pelo conselho estadual de educação, alvarás, licença sanitária e certificado do corpo de bombeiros dentro da validade. Protocolos de segurança escritos e treinados, incluindo evacuação, acidente, emergência médica e saída de aluno, com registro das simulações. Fluxos de proteção alinhados ao Estatuto da Criança e do Adolescente, com política de notificação de suspeita de violência e responsável designado. Conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) no tratamento de dados de alunos e famílias: base legal definida, política de retenção, controle de acesso e contratos com fornecedores que processam dados. Contratos de prestação de serviços educacionais, política de imagem e regimento escolar atualizados e efetivamente entregues às famílias. Escrituração e registros acadêmicos em dia, conforme a LDB e as normas do conselho estadual, incluindo o passivo histórico que toda secretaria carrega. Recomendo tratar esse inventário como pauta fixa trimestral, com semáforo. É maçante, e é o item cuja ausência inviabiliza todo o resto. 7. O painel administrativo e a rotina que o sustenta Um painel administrativo útil cabe em uma página e se organiza pela periodicidade da decisão. Semanal: aulas vagas e reposições pendentes, absenteísmo docente, manutenção crítica, atendimentos a famílias por motivo. Mensal: fluxo de caixa realizado contra projetado, inadimplência por faixa de atraso, participação da folha na receita, movimentação de matrículas. Trimestral: rotatividade docente acumulada, execução do plano de manutenção, inventário de conformidade. Anual: rematrícula por turma e segmento, custo por aluno, pesquisa de clima com professores e famílias, revisão do quadro e da grade. A rotina que sustenta o painel importa mais do que o painel. Recomendo concentrar a gestão administrativa em um dia fixo da semana. Distribuída ao longo de cinco dias, ela invade o tempo pedagógico por capilaridade. Abrucio, ao estudar dez escolas paulistas com resultados acima do esperado, encontrou como traço comum uma direção efetivamente envolvida com o trabalho pedagógico. Isso não se obtém por disposição pessoal. Obtém-se por desenho de agenda. 8. Um limite honesto Nenhuma reorganização administrativa, por si só, ensina alguém. A gestão cria condições e condições não produzem aprendizagem sem que alguém as converta em prática de sala de aula. A crítica de Luiz Carlos de Freitas ao transplante de lógicas empresariais para a escola merece ser levada a sério exatamente aqui. Quando a gestão se autonomiza dos fins pedagógicos, ela passa a produzir indicadores, metas e rankings que sobrevivem por conta própria, desmoralizando o trabalho docente e estreitando o currículo. O contraponto é o mesmo de Paro: a administração escolar existe para viabilizar a educação e não o inverso. Por outro lado, a evidência brasileira mostra que o efeito existe e é mensurável. Entre desprezar a gestão e transformá-la em finalidade, há um espaço amplo e é nele que trabalha um bom diretor. 9. Conclusão Veiga distingue o projeto político-pedagógico produzido para cumprir exigência externa daquele construído coletivamente para organizar intencionalmente o trabalho da escola. A distinção vale integralmente para a gestão administrativa. Existe a administração que apenas mantém a instituição funcionando e existe a que decide, deliberadamente, quanto tempo, quanto dinheiro e quanta atenção serão alocados naquilo que produz aprendizagem. A primeira é indispensável e insuficiente. A segunda distingue uma escola bem administrada de uma escola que apenas não quebra. A pergunta para a próxima reunião de orçamento é objetiva: das decisões que vamos tomar hoje, quais têm consequência direta sobre o que acontece dentro da sala de aula, e quem vai acompanhar essa consequência ao longo do ano. Referências ABRUCIO, Fernando Luiz. 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Educação & Sociedade, Campinas, v. 33, n. 119, p. 379-404, 2012. GATTI, Bernardete A.; BARRETTO, Elba Siqueira de Sá. Professores do Brasil: impasses e desafios. Brasília: UNESCO, 2009. GOBBI, Beatriz Christo; LACRUZ, Adonai José; AMÉRICO, Bruno Luiz; ZANQUETTO FILHO, Hélio. Uma boa gestão melhora o desempenho da escola, mas o que sabemos acerca do efeito da complexidade da gestão nessa relação? Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação , Rio de Janeiro, v. 28, n. 106, p. 198-220, 2020. INEP. Relatório Nacional da Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (TALIS) 2018. Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2021. INEP; OCDE. Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (TALIS) 2024: resultados do Brasil. Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2025. LIBÂNEO, José Carlos. Organização e gestão da escola: teoria e prática. Goiânia: Alternativa, 2004. LÜCK, Heloísa. 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